É muito difícil precisar as datas e etapas dos processos que
levaram à criação da Fotografia, pois muitos deles são experiências
conhecidas pelo homem desde a Antigüidade, e acrescenta-se a isso um
conjunto de cientistas em diversas épocas e lugares que aos poucos foram
descobrindo as partes deste intrincado quebra-cabeças, que somente no
final do séc. XIX foi inteiramente montado.
Entretanto, é possível
apontar alguns destes fatos e descobertas como sendo relevantes para a
invenção da fotografia.
Os fundamentos daquilo que veio a se chamar
fotografia vieram de dois princípios básicos, já conhecidos do homem há
muito tempo, mas que tiveram que esperar muito tempo para se manifestar
satisfatoriamente em conjunto, que são: a câmara escura e a existência de
materiais fotossensíveis.
A Câmara Escura

Câmara
obscura |
A câmara escura nada mais é que uma caixa preta totalmente
vedada da luz com um pequeno orifício ou uma objetiva em um dos seus
lados. Apontada para algum objeto, a luz refletida deste projeta-se
para dentro da caixa e a imagem dele se forma na parede oposta à do
orifício. Se, na parede oposta, ao invés de uma superfície opaca,
for colocada uma translúcida, como um vidro despolido, a imagem
formada será visível do lado de fora da câmara, ainda que
invertida. |
Isso permite a visão de qualquer paisagem ou objeto através do
orifício que, dependendo do tamanho e da distância focal, projetava uma
imagem maior ou menor.
A câmara escura é uma
dessas invenções que não se sabe a origem. Descrições de quartos fechados
com orifícios que projetam imagens em seu interior existem desde a
Renascença, e suas referências indicam desde a Grécia Antiga, mas há ainda
referências deste conhecimento entre os chineses, árabes, assírios e
babilônios. Há muita controvérsia sobre o conhecimento e utilização das
câmaras escuras na antigüidade justamente por sabermos que é impossível a
projeção dessas imagens a partir de pequenos orifícios em um quarto
grande, em que poderia caber um homem, uma vez que o orifício, para formar
uma imagem, deve ser muito pequeno, e a quantidade de luz não é suficiente
para projetar uma imagem de grandes proporções. Centenas de ilustrações de
tratados renascentistas fazem alusão a este tipo de câmara, que, longe de
ser apenas uma caixa, tinham as dimensões de uma sala, onde artistas se
posicionavam em seu interior, podendo assim se utilizar da projeção para
tomar moldes de desenho. Portanto, é provável que os homens da renascença
não tenham testado uma câmara destas proporções. Também não se sabe
exatamente a que obras os renascentistas se referem quanto à citação de
usos da câmara na antigüidade, uma vez que não há registros diretos; e nem
ao menos se sabe que uso os antigos poderiam fazer de semelhante aparelho,
uma vez que não havia estudo de perspectiva e nem conhecimento de
materiais fotossensíveis.
|
|
Acima, dois exemplos que ilustram
registros do uso da câmara escura como um grande quarto em que
poderia caber um homem. A da esquerda é uma ilustração da
Renascença, e a segunda, do
séc.XVIII
|
Entretanto, apesar das origens
escusas, na Renascença seu uso parecia estar muito bem disseminado.
Poderíamos estabelecer uma cronologia mais ou menos assim de obras que
citam a utilização da Câmara escura:
1521- Monge Papnutio da Cesare
Cesariano -"Commetaires de Virtruve"
1521- Francesco Maurolico
da Messina - "Photismi de lumine et umbra ad perspectivam et radiorum
incidentiam facientes" - editado em 1611 (fazendo referência a um primeiro
estudo de 1521)
1544 - Gemma Frisius (Renerius) - relata o uso
de uma câmera escura na observação de um eclipse em Louvain na
Bélgica.
1553- Giovanni Battista Della Porta - "Magia Naturalis"
Considerado em muitos compêndios de cinema e fotografia como o inventor da
Câmara Escura. Entretanto, há várias ressalvas sobre isso, entre elas as
referências mais antigas, e entre outras, algumas indicações dadas por
Della Porta que não são verdadeiras.
1568- Daniello Barbaro -
Nos dá uma versão melhor da câmara escura de grandes proporções,
descrevendo o uso num quarto escuro apenas colocando uma folha de papel
próxima ao orifício com a lente, projetando assim uma imagem. (Neste caso,
o uso do quarto escuro é possível).
1646 - Athanasius Kirscher
(Athanasio), "estranha e mirabolante figura, misto de cientista e
mistificador, realizou uma gigantesca obra abrangendo o Egito Antigo, a
China, a Astronomia, e vários outros assuntos" (segundo Mario Guidi, pp.
21-22), publicando um estudo sobre a Câmara escura num tratado chamado
'Ars Magna Lucis et Umbrae', em que também há referências precisas sobre
câmaras escuras, grandes e pequenas, bem como lanternas
mágicas.
De qualquer forma, a câmara escura foi
largamente usada durante toda a Renascença e grande parte dos
séculos XVII e XVIII para o estudo da perspectiva na pintura, só que
já munida de avanços tecnológicos típicos da ciência renascentista,
como lentes e espelhos para reverter a imagem. A câmara escura só
não podia estabilizar a imagem obtida. |
 |
Fotossensibilidade: os haletos
de Prata
A outra ponta da entrincada
corrente que desembocou na fotografia diz respeito aos materiais
fotossensíveis. Fotossensibilidade é um fenômeno que quer dizer,
literalmente, 'sensibilidade à luz'. A bem da verdade, toda a matéria
existente é fotossensível, ou seja, toda ela se modifica com a luz, como
um tecido que desbota no sol, ou mesmo a tinta de uma parede que vai aos
poucos perdendo a cor, mas algumas demoram milhares de anos para se
alterarem, enquanto outras apenas alguns segundos já lhes são suficientes.
Ora, para a reprodução de uma imagem, de nada adiantaria um material de
pouca fotossensibilidade, de maneira que todos os cientistas ou curiosos
que procuraram de alguma maneira a imagem fotográfica começaram
pesquisando sobre o material que já há muito era conhecido e considerado o
mais propício para tal: os sais de prata.
A própria alquimia
renascentista já registra as propriedades fotossensíveis da prata, sendo
referenciada em 1566 por Georg Fabricius, o que indica que o conhecimento
destas propriedades devia ainda ser anterior ao séc.XVI. Os haletos, ou
sais de prata, modificam-se rapidamente com a ação da luz, enegrecendo-se
na mesma proporção em que recebem luz.
E outros registros,
sucessivamente em 1727, 1763, 1777 e 1800, nos relatam experiências de
imagens obtidas a partir de papéis embebidos em soluções de sais de prata.
A maior parte dessas experiências era feita como uma cópia por contato, ou
seja, algum objeto era colocado sobre o papel sensibilizado, e assim se
obtinha uma imagem ou silhueta daquele objeto. Mas, ainda antes de 1800,
um certo Wedgwood, na Inglaterra, chegou a utilizar a câmara escura para
obter, com sucesso, essas imagens.
Então, por que a fotografia já não
foi inventada nesta época, precisando esperar mais 40 anos?
É que, após
ser feita a impressão de uma imagem no papel de sais de prata, esta imagem
não se mantinha estável, pelo simples motivo que a prata continuava
fotossensível. Em palavras simples, a prata reage à luz ficando mais negra
à medida que recebe maior quantidade de luz. Então, se gravamos uma imagem
com os grãos de prata, como faremos para olhar o resultado? É fácil, é só
vê-los na luz. Mas vendo a imagem na luz, a prata continuava a ser
sensibilizada, enegrecendo gradativamente a imagem obtida.
Este foi o
principal problema que os pioneiros da fotografia enfrentaram, a busca de
um método eficiente de estabilizar a prata, impedindo-a de se sensibilizar
após o registro da imagem.
Os pioneiros da
fotografia
Eis então que adentra ao cenário
da história o sr. Nicéphore Nièpce, nascido em Chálon-sur-saóne, França,
em 1765. Apesar de ter seguido carreira militar, ele e seu irmão Claude se
interessavam por pesquisas como cientistas amadores, e, apesar de
diletantes, eram empenhados e chegaram a inventar, por volta de 1815, um
motor a explosão.
Mas a busca pelo registro visual era um fascínio
pessoal de Nicéphore, que estudou diversas técnicas reprográficas, e tendo
com isso feito importantes melhorias no processo de litografia. Mas
procurava, assim como outros, uma possibilidade de utilizar a imagem da
câmara escura, uma vez que os demais processos só permitiam reprodução de
originais opacos ou transparentes, e não imagens projetadas da natureza
real.
A primeira tentativa de Nièpce foi feita com o betume da judéia,
uma espécie de verniz utilizado na técnica de água forte, que possui a
propriedade de secar rapidamente quando exposto à luz. Esse betume possui
um solvente, óleo de lavanda, e que não consegue dissolvê-lo depois deste
ter estado em contato com a luz, o que permitia que as partes não expostas
pudessem ser removidas, formando assim uma imagem rudimentar. Nièpce
procurou de muitas formas utilizar chapas metálicas emulsionadas com esse
betume para imprimir imagens na câmara obscura, mas a quantidade de luz
que entrava por ela era muito pouca, considerando a provável sensibilidade
do betume, da ordem de 0,0012 ISO, e o tempo de exposição provavelmente
ultrapassava 12 horas (Niépce registra 8, mas deveria ser mais). Com isso,
além da modificação das sombras, pelo movimento da Terra em relação ao
Sol, que deixava a imagem irregular e confusa, o solvente também evaporava
e a chapa ficava inteiramente seca.
Assim, uma única imagem
sobreviveu dessas experiências, muito provavelmente por ter sido
tirada de sua janela, que permitia a entrada de luz em condições de
temperatura mais amenas, fazendo o solvente não se evaporar. Essa
'fotografia', de 1826 ou 27, é atualmente considerada historicamente
a primeira, mas o próprio Nièpce não considerava esta uma
experiência bem-sucedida, porque a imagem original é um grande
borrão, impossível de ser copiada, e cujos contornos só podem ser
vistos quando olhados em certo ângulo e com luz adequada. A
reprodução que hoje temos foi feita e retocada com técnica modernas
na década de 1950. |

Apesar das controvérsias,
esta imagem de Nièpce é
considerada a primeira
fotografia. |
Nièpce entretanto, com todas estas experiências, acabou
desenvolvendo uma forma de reprodução por contato utilizando o betuma da
Judéia, a que ele chamou 'Heliografia', ou 'escrita do sol'.
Foi através da divulgação de suas
Heliografias que Nièpce acabou conhecendo outro personagem histórico:
Louis Jacques Mandé Daguerre. Ambos utilizavam os serviços de um
personagem em comum, fabricante de lentes, e que lhes pôs em contato.
Daguerre também trabalhava com uma câmara escura, mas que utilizava para
pintura, e não se sabe bem como se interessou pelas pesquisas na área do
que viria a ser a fotografia, uma vez que não há registros de experiências
feitas por ele neste campo antes de conhecer Nièpce. De todo modo,
Daguerre ficou entusiasmado com a possibilidade de desenvolver uma técnica
de reprodução visual eficiente e propôs uma sociedade com Nièpce. Este
hesitou durante muito tempo, mas Daguerre conseguiu convencê-lo e firmaram
sociedade em 1829.
A sociedade entre Daguerre e Nièpce tinha por
objetivo o aprimoramento das técnicas até então desenvolvidas, mas ambos
trabalhavam em sentidos opostos, uma vez que Nièpce tinha em mente uma
imagem capaz de ser copiada, reproduzida, e Daguerre, como era pintor,
procurava simplesmente uma imagem satisfatória. Nada conseguiram em
conjunto, e 4 anos após a sociedade, Nièpce faleceu, em 1833.
Daguerre
continuou as experiências de Nièpce e as aperfeiçoou, mas não sem grandes
dificuldades. Primeiro, utilizou como base chapas metálicas de prata ou
cobre, que já haviam sido testadas por Nièpce com bons resultados. Entretanto, todas as experiências de
Nièpce tinham por objetivo a obtenção de uma matriz para ser reproduzida,
e Daguerre, que não tinha intenção de descobrir um sistema litográfico
mais avançado, teve que deixar de lado todo o avanço nesta área já feito
por Nièpce com o betume da Judéia, e experimentou trabalhar com sais de
prata, como outros faziam na busca da imagem fotográfica.
O problema dos
compostos de sais de prata é que, apesar da rapidez com que
apreendiam uma imagem, esta era muito rudimentar e o problema da
fixação ainda não estava resolvido. Eis que, a certa altura,
Daguerre conseguiu resolver este impasse, e ele próprio conta que
foi através de um acaso: estando exausto e decepcionado por não
conseguir obter resultados satisfatórios, jogou uma de suas chapas
num armário e esqueceu-se dela. Alguns dias mais tarde, à procura de
alguns químicos, abriu o armário e deparou-se com ela; só que havia
uma imagem impressa nela, que antes não estava lá. Procurou a razão
disso e desconfiou que havia sido por causa do mercúrio de um
termômetro que havia se quebrado. Fez alguns testes e o resultado
foi o daguerreótipo. |
|
Daguerre em um de
seus daguerreótipos |
Finalmente, havia sido contornado
o problema da nitidez e da fixação. O processo era bastante simples. Uma
chapa metálica era tratada com vapores de iodo, que se tornavam iodeto de
prata (um haleto de prata) quando impregnados na chapa, tornando-a
fotossensível. Essa chapa era colocada numa câmara escura, sem contato com
a luz, e feita uma exposição que variava de 20 a 30 minutos mais ou menos.
Após a exposição, era necessário fazer o iodeto de prata se converter em
prata metálica, para a imagem se tornar visível, e eis que entrava o
mercúrio, cujo vapor foi o primeiro sistema de revelação fotográfica
anunciado comercialmente. Este era um dos trunfos da daguerreótipo: como
sua imagem era convertida em prata metálica, esta ficava muito mais nítida
que a imagem do haleto comum, e sua definição e riqueza de detalhes eram
impressionantes. Depois, para afinal, fixar a imagem, Daguerre nos informa
que utilizava nada menos que cloreto de sódio, ou sal de cozinha. Daguerre
produziu um pequeno daguerreótipo nessas condições em 1837, e em 7 de
janeiro de 1839, é anunciada a descoberta do processo na Academia de
Ciências de Paris.
O
daguerreótipo tinha algumas implicações características: primeiro,
sua imagem era tanto negativa como positiva. Na verdade, a imagem
formada diretamente era negativa, pois a prata fica mais preta
quanto mais luz recebe, só que a superfície de impressão era
metálica, e dependendo do ângulo de visão e da incidência da luz,
ela se tornava positiva. Além disso, era uma imagem espelhada, ou
seja, como a imagem na câmera se formava ao contrário e não havia
cópia, ela mantinha-se invertida. |
|
Esta é a imagem que
Daguerre considerava seu primeiro daguerreótipo
bem-sucedido. |
Câmera utilizada por Daguerre
|
E era, uma imagem única,
sem possibilidade de cópia, por estar gravada numa superfície opaca.
Alguns viam tais características como limitadoras, outros como
naturais, mas o fato é que o daguerreótipo tinha uma qualidade
impressionante de imagem, extremamente nítida e com detalhes que por
vezes nem a olho nu se conseguia distinguir. O sucesso é
patente.
|
Quase que imediatamente, a
notícia se espalha pelo mundo. A repercussão é imensa junto ao
público, e de uma hora para outra, diversos outros pesquisadores
aparecem no cenário público, reivindicando o invento para si. Não
que fossem mal-intencionados com histórias falsas e datas
adulteradas, mas havia um grande interesse comercial envolvido, e o
fato é que realmente muita gente, ao mesmo tempo e em várias partes
do mundo, buscavam a 'imagem fotográfica', sem que eles se
conhecessem.
Quando Daguerre anunciou sua descoberta, ele ganhou
uma corrida em que não se conhecia o número de participantes. Mas 3
deles merecem destaque: |
Na Inglaterra, William Fox Talbot
trabalhava também desde 1833 num processo similar para obtenção de
imagens. Suas dificuldades foram as mesmas da maioria dos proponentes à
descoberta: não conseguiu achar um meio eficaz de fixar as imagens e
utilizava como base papel impregnado com emulsão de sais de prata. O que
conseguiu de mais próximo foram impressões diretas, por contato sobre
papel, e que ele denominou Calótipo. Mas Talbot experimentou também
colocar o papel diretamente na câmara escura, e obteve resultados
satisfatórios, pouco antes de Daguerre. Estipula-se que Talbot nada tenha
dito em relação à sua descoberta por não ter conseguido, como Daguerre,
uma maneira eficiente de fixar a prata sensibilizada. Apesar de também ter
usado sal de cozinha, a fixação numa solução de salmoura funcionava com
uma chapa de metal, mas não com uma folha de papel, que se desmancharia
depois de certo tempo. Talbot, assim como Nièpce, também queria
desenvolver uma maneira de copiar estas imagens, razão pela qual
manteve-se nas experiências com papel. Mas Talbot, que além de tudo era
matemático e botânico, tinha em seu círculo de amigos alguns cientistas da
Royal Society de Londres, entre eles um certo John William Frederick
Herschel.
William Fox
Talbot |
Filho do famoso astrônomo
que descobriu o planeta Urano, Herschel também se interessou pela
corrida à obtenção do que seria a imagem fotográfica, quando tomou
conhecimento do anúncio de Daguerre em janeiro de 1839. Herschel
queria, na verdade, um método para 'fotografar' as imagens da
abóbada celeste obtidas por um grande telescópio que ele próprio
construiu, num interesse astronômico cuja ambição era o de registrar
todos os corpos visíveis no céu. Herschel conhecia, através de
Talbot, as dificuldades que envolviam os pioneiros da fotografia, e
sabendo que Daguerre havia conseguido resultados satisfatórios,
resolveu pesquisar ele próprio, métodos que pudessem resolver tais
problemas. Ele e Talbot trocaram diversas experiências e informações
durante algumas semanas, pois Herschel tinha conhecimentos muito
mais profundos de química, e lembrou-se de algumas experiências
feitas alguns anos antes. |
Nestas tentativas, às pressas,
Herschel foi o responsável pelo súbito avanço da fotografia em termos
técnicos. Um avanço que, se fosse calculado no ritmo com que ela havia
andado até então, seria algo como 5 anos em 1 mês.
Herschel, em suas
experiências, testou diversos sais de prata, tais como cloreto, nitrato,
carbonato e acetato, concluindo que o nitrato era o mais sensível (até
hoje uma boa parte do material sensível fotográfico é baseado em nitrato
de prata). Quanto à fixação, lembrou-se que tinha testado, por volta de 10
anos antes, o hipossulfito de sódio (hoje chamado tiossulfato) para
interromper a ação da luz sobre a prata. Retomando as experiências com o
mesmo material, agora já com novas técnicas e perspectivas, teve a
seguinte conclusão: 'Resultado perfeito. O papel exposto à luz, pela
metade, é embebido com hipossulfito de sódio e em seguida lavado com água.
Após secagem, o papel é novamente exposto à luz. A metade escura permanece
escura, e a metade clara permanece clara.' Finalmente, estava resolvido o
problema da fixação fotográfica.
Mas o capítulo Talbot ainda não
terminou. Tendo descoberto um método eficiente de fixar as imagens,
patenteou o calótipo em 1841, talvez numa tentativa de brigar com a
patente de Daguerre, não apenas do ponto de vista comercial, mas até pela
primazia do invento. Herschel, entretanto, desaconselhou Talbot a promover
qualquer tipo de iniciativa jurídica ou comercial contra Daguerre, uma vez
que teve oportunidade de ver os daguerreótipos antes de Talbot, e sua
impressão foi a seguinte: 'comparadas com essas obras de arte de Daguerre,
o senhor Talbot não produz senão coisas vagas e desfocadas'.
Sem
dúvida, considerando o sistema de ambos, a cópia em papel tinha grandes
desvantagens do ponto de vista da nitidez e definição, uma vez que o
processo de Daguerre era direto, e o de Talbot exigia copiagem em material
translúcido, o papel, que implicava numa qualidade muito inferior. Mas
convém lembrar que seu processo era o que hoje chamamos de imagens
evidentes, ou seja, uma imagem que já se formava na medida em que ia sendo
exposta. Isso significa que a imagem não ficava latente, ou seja, o
controle do tempo de exposição era feito na própria observação da imagem.
Quando esta adquiria uma densidade desejável, o fotógrafo
interrompia sua exposição e tratava de fixar a imagem. É claro que este
método tornava a fotografia extremamente lenta em termos de tempo de
exposição, por vezes questão de horas, o que sem dúvida contribuía, no
caso de retratos, para não representar nenhum tipo de concorrência ao
daguerreótipo. Talbot então descobriu uma
fórmula para obter imagens negativas latentes no calótipo, ou seja,
precisava, assim como o daguerreótipo, de revelação.
Esse método consistia em
sensibilizar as folhas de papel inicialmente com nitrato de prata, e
posteriormente com iodeto de potássio, formando o iodeto de prata. O
iodeto era altamente sensível à luz, o que reduzia drasticamente o tempo
de exposição, de horas para poucos minutos, e revelados numa solução de
ácido gálico e nitrato de prata. Depois, fixados com o tiossulfato de
sódio e eram obtidas imagens negativas em pouco tempo. Mas, para fazer
cópias por contato, Talbot ainda se utilizava do sistema de imagem
evidente, com papéis sensibilizados com cloreto de prata, o que era mais
vantajoso pois era possível controlar a intensidade dos tons de cópia pela
observação.
Esse sistema permitiu que a fotografia em papel aos poucos
tomasse lugar do daguerreótipo na corrida pela melhor imagem, mas ainda
faltava o principal: melhorar a imagem.
Cabe ainda o parênteses sobre mais
uma importante figura, isolada e anônima, na descoberta da fotografia, o
terceiro personagem de destaque nessa história. Entre os anos 1824 e 1879,
viveu no Brasil - mais precisamente na Vila de São Carlos, hoje Campinas -
o desenhista e tipógrafo francês Hercules Florence, e que até há pouco
tempo era famoso apenas por ter feito parte da expedição do Barão
Langsdorff pelo interior do Brasil. Recentemente, através de pesquisas do
Foto-Cine Clube Bandeirante, e publicadas como estudo por Boris Kossoy,
uma não menos interessante faceta de Florence veio à tona: inventor da
fotografia.
Consta que Florence procurava uma maneira de reproduzir
tipos gráficos, tendo enormes dificuldades, na época, de fazer publicar
manuscritos de sua autoria. Haviam poucas tipografias disponíveis e todas
pertenciam a um mesmo dono, o que monopolizava a produção impressa. Antes
de pensar em montar sua própria tipografia, Florence resolveu investigar
os efeitos de materiais fotossensíveis. Tomando conhecimento dos efeitos
do nitrato de prata, Florence desenvolveu um processo rudimentar de
fixação de imagens em papel sensível, primeiramente através de cloreto de
ouro, cujo agente fixador deveria ser amônia. Na falta desta substância,
Florence utilizou nada menos que a própria urina para estabilizar as
imagens, e obteve resultados satisfatórios em 1833. Depois, passou a
utilizar outras substâncias, mais baratas que o sal de ouro, entre eles o
nitrato de prata, que chegou a utilizar até mesmo com uma câmera escura.
Mais tarde, desenvolveu com base nesses resultados, um método de impressão
em papel a partir de originais desenhados em vidro, obtendo cópias por
contato de ótima qualidade.
Em seus diários e
anotações, constam importantes descobertas feitas isoladamente, e
que em muito se pareciam com as que Daguerre, Talbot e Herschel
fizeram na Europa. As dificuldades que ele enfrentou, tendo que
construir sua própria câmara escura de maneira rudimentar, e a busca
pelos próprios métodos, com quase nenhum auxílio, fazem de sua
descoberta um grande mérito. Florence chegou a um método de fixação
de imagens por contato em papel que lhe renderam ótimos resultados,
dos quais ainda sobrevivem encomendas de trabalhos, como seus
rótulos de farmácia e um diploma maçônico. Apesar de Florence não
ter dado nenhum nome específico a seu processo pela câmara escura,
seu sistema de impressão por contato em negativo foi chamado de Fotografia, por ele e por um colaborador, o boticário Joaquim
Corrêa de Mello. Segundo consta, foi a primeira vez que se utilizou
o termo e ao que tudo indica, cabe a ele o mérito da
nomenclatura. |
Hercules
Florence |
Repercussão da
Fotografia
Mas voltando à França de Daguerre,
não podemos deixar de frisar as qualidades excepcionais de imagem quanto à
nitidez que obtinha com seu processo, mas que também não estava isento de
todos os inconvenientes. O primeiro ainda era o tempo de exposição que,
embora tivesse diminuído radicalmente, permitindo agora o registro de
pessoas e não mais só de paisagens, ainda necessitava de pelo menos dois
ou três minutos de imobilidade total, obrigando seus modelos a exercitar
rigidez muscular ou sentarem-se em cadeiras com apoio para o pescoço.
O segundo, e talvez o pior dos problemas do daguerreótipo, era sua
total incapacidade de reprodução múltipla. Um daguerreótipo era apenas uma
placa de cobre emulsionada que, uma vez revelada, tornava-se visível num
meio opaco, ou seja, não havia meios de copiá-la.
Parece um instrumento de
tortura, mas trata-se de um acessório para manter imóvel o modelo
fotografado |
Na verdade, tal limitação
foi explorada comercialmente por Daguerre como uma maneira elitizada
de registro alternativo, tal como a pintura - que a princípio,
também é única. Assim, famílias abastadas poderiam ser registradas
de maneira muito mais fiel que a pintura, sem perder o estigma de
obra única. Daguerre não parecia interessado em aperfeiçoar sua
descoberta, limitando-se a manter um público para a daguerreotipia,
sem qualquer alteração, falecendo num retiro em 1851 sem incluir
nenhum dos avanços tecnológicos conquistados até então, mantendo o
daguerreótipo como peça de museu.
Em compensação, até 1860, a
calotipia se desenvolveu muito em termos tecnológicos, mas por uma
questão de direitos autorais, esses processos precisaram sofrer
mudanças para poderem ser explorados pelos fotógrafos interessados. |
Apesar da dificuldade de
reproduzir os parâmetros comerciais e estéticos desta época, tudo indica
que as coberturas de patentes que Daguerre e Talbot impeliram ao mundo da
fotografia foi extremamente prolífico para a evolução tecnológica. Afinal,
os fotógrafos desta época, para evitar o pagamento de altos tributos,
precisavam mudar as fórmulas, o que gerou uma grande diversidade de
processos fotográficos e uma conseqüente evolução comercial que desembocou
na fotografia tal como hoje conhecemos. O processo foi mais ou menos
assim:
O Daguerreótipo mantinha suas
limitações de reprodutibilidade, enquanto que o calótipo foi estudado com
mais afinco por justamente possibilitar um número ilimitado de cópias de
uma única matriz, ainda que com resultados não muito satisfatórios por ser
uma cópia contato de uma matriz translúcida. Muitos fotógrafos pensaram
então no vidro, único material transparente disponível que possibilitaria
a obtenção de cópias de qualidade comparável ao daguerreótipo. A
dificuldade residia em fixar a emulsão num suporte de vidro, que não era
poroso o suficiente para manter a emulsão fixa na placa. Esse problema foi
resolvido em 1848 pelo neto de Nièpce, Claude, que descobriu ser a
albumina da clara de ovo um excelente suporte para a emulsão de nitrato de
prata, permitindo sua adesão no vidro de maneira extremamente eficiente.
Seu método espalhou-se rapidamente, pois finalmente, a fotografia
negativa-positiva era de qualidade comparável ao daguerreótipo.
Entretanto, um tanto difícil de se manusear. A chapa ficava pouco
sensível, em decorrência da densidade da albumina, demandando novamente um
longo tempo de exposição. Mas, apesar disso, houve uma verdadeira corrida
atrás desta nova técnica, sendo que uma firma alemã de Dresden chegou a
utilizar 60.000 ovos por dia para confecção de chapas fotográficas! Era
claro, portanto, que esse processo não iria manter-se por longo tempo,
pois o custo do ovo chegou a subir mais de 50%, e não haveria demanda para
consumo culinário e fotográfico ao mesmo tempo.
Mas alguns passos
importante já haviam sido dados em direção à fotografia instantânea de
qualidade: Daguerre utilizava em sua câmera uma lente simples, de tipo
menisco convergente, e que não era muito luminosa. Mas, em 1840, Joseph
Max Petzval projetou uma lente de características diferentes, mais
avançada em termos de cálculos óticos, e possibilitou a construção de uma
lente, que hoje equivaleria a uma abertura de f/3.6, o que era
extremamente luminosa para os padrões da época.
Com a objetiva
Petzval, o grande obstáculo para a fotografia instantânea voltava a ser o
suporte dos haletos de prata, uma vez que a chapa de vidro com albumina
era muito cara.
Apenas em 1850 foi
acrescida uma invenção capaz de ser utilizada satisfatoriamente como
alternativa à albumina de ovo: o colódio. Foi o inglês Frederick
Scott Archer quem o desenvolveu, a partir da dissolução de
algodão-pólvora em mistura de álcool e éter. Este algodão pólvora,
também chamado algodão-colódio, é por sua vez uma mistura de ácido
sulfúrico e nítrico (piroxilina), altamente explosivo, que veio a
ser, posteriormente, a base para o nitrato de celulose das primeiras
películas cinematográficas. O colódio era muito mais barato de se
obter e possuía melhores condições de transmissão luminosa, o que
diminuiu novamente os tempos de exposição da fotografia, fazendo de
alguns segundos um tempo suficiente para impressão da
chapa. |
Um fotógrafo e seu laboratório móvel |
Mas ainda não era o processo
definitivo, pois tais chapas precisavam ser preparadas, expostas e
reveladas na mesma hora, pois que ao secar, a emulsão perdia sua
capacidade fotossensível, o que desencadeava a necessidade do fotógrafo
itinerar com todo o seu equipamento para preparar as chapas onde quer que
fosse. O colódio de Archer era chamado, por essa razão, de colódio úmido
ou chapa úmida. Fazer fotos externas nesta época não era tarefa fácil!

Cartaz de propaganda
das recém-lançadas chapas secas |
Levando-se em consideração
que a chapa de vidro, as objetivas mais luminosas e o colódio úmido
de Archer trabalhavam em conjunto, os resultados colhidos eram
extremamente satisfatórios e a fotografia, apesar das dificuldades,
tinha já qualidade comparável ou mesmo superior ao daguerreótipo,
ainda possibilitando a cópia em papel a partir de negativos em
vidro. Portanto, durante mais ou menos 20 anos, entre 1850 e 1870,
este foi o principal sistema utilizado pela maioria dos fotógrafos,
não obstante as constantes experiências e aperfeiçoamentos que aos
poucos foram sendo incorporados à arte
fotográfica. |
Foi um médico inglês, Richard
Maddox, que, em 1871, experimentou ao invés de colódio, uma suspensão de
nitrato de prata em gelatina de secagem rápida. A gelatina, de origem
animal, não só conservava a emulsão fotográfica para uso após a secagem
como também aumentava drasticamente a sensibilidade dos haletos de prata,
tornando a fotografia, finalmente, instantânea. Era um processo
extremamente barato (pois gelatina pode ser obtida de restos de ossos e
cartilagens animais) e, ao substituir o colódio, ficou conhecida como
chapa seca.
O último capítulo relevante do
desenvolvimento e aperfeiçoamento dos processos fotográficos deu-se,
novamente com um inglês, chamado George Eastman, um bancário que aos 23
anos de idade adquiriu uma câmera fotográfica e apaixonou-se pela
atividade, ainda no rudimentar processo de chapa úmida. Aborrecido com o
lento e trabalhoso processo de preparar as chapas e usá-las imediatamente,
Eastman leu um artigo sobre a emulsão gelatinosa e interessou-se por ela,
a ponto de começar a fabricá-la em série. Mas, não dado por satisfeito,
ainda achava complicado o processo de estocagem das chapas de vidro - além
de pesadas, quebravam com facilidade -, e imaginou que poderia tornar a
fotografia muito mais prática e eficiente se encontrasse uma maneira de
abreviar o processo todo.
Aliando a
tecnologia da emulsão com brometo de prata (mais propícia para fazer
negativos, e, consequentemente, cópias) com a rapidez de
sensibilidade já existente na suspensão com gelatina e a
transparência do vidro, Eastman substituiu esta última por uma base
flexível, igualmente transparente, de nitrocelulose, e emulsionou o
primeiro filme em rolo da história. Podendo então enrolar o filme,
poderia obter várias chapas em um único rolo, e construiu uma
pequena câmara para utilizar o filme em rolo, que ele chamou de
"Câmara KODAK". Lançada comercialmente em 1888, reza a lenda que o
nome veio de uma onomatopéia, o barulho que a câmara fazia ao
disparar o obturador, e o sucesso do invento tornou todos os
processos anteriores completamente obsoletos, relegados apenas a
fotógrafos artesãos. |

A câmera
KODAK
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Eastman projetou uma câmara
pequena e leve, cuja lente era capaz de focalizar tudo a partir de 2.5m de
distância, e, seguidas as indicações de luminosidade mínimas, era só
apertar o botão. Depois de terminado o rolo, o fotógrafo só precisaria
mandar a câmara para o laboratório de Eastman, que receberia seu negativo,
cópias positivas em papel e a câmara com um novo rolo de 100 poses. Seu
slogan era "Você aperta o botão, nós fazemos o resto." Uma verdadeira
revolução, que fez da Kodak uma gigantesca empresa, pioneira em todos os
demais avanços técnicos que a fotografia adquiriu até hoje.
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Fotos típicas das
primeiras câmeras Kodak, que caracterizavam-se por seu formato de
janela redondo |
O século XX
Na entrada do ano de 1900, a
fotografia já tinha todos os quesitos necessários para o registro de
imagens com altíssima qualidade de exposição e reprodução, tanto que o
cinema, cuja base é fotográfica, só seria possível tecnologicamente nestas
condições, sendo concretizado por Edison e os irmãos Lumière. Mas na
fotografia estática, os principalis avanços foram de ordem mecânica, na
construção de lentes cada vez mais precisas e nítidas, e câmeras portáteis
de diversos formatos e tamanhos. A Eastman lançou, por exemplo, em 1900, a
câmera Brownie, que custava apenas 1 dólar, e que trasformou radicalmente
a fotografia em uma arte popular, legando outras empresas a supremacia por
uma qualidade técnica profissional.
Neste quesito, dois fabricantes de
lentes se destacaram no mercado pela excelência da construção óptica, a
Carl Zeiss e a Schneider, ambas alemãs, e que contribuíram largamente para
o aumento da capacidade luminosa e qualidade da imagem formada.
Cartaz de propaganda da
câmera Brownie |
Da mesma forma,
foram explorados diversos tipos de formatos, pois os negativos de
Eastman eram muito pequenos, propícios apenas a amadores. Fotógrafos
profissionais ainda precisavam de chapas de negativo, mas agora
confeccionados em material flexível e não mais em vidro. Os formatos
em chapa foram explorados sob diversos tamanhos por diversos
fabricantes de câmeras, mas havia sempre uma limitação comercial, da
qual dependia a sobrevivência do formato. Assim, os fabricantes de
câmeras lançavam produtos que exigiam determinados formatos, e sob
encomenda deste fabricante, chapas de negativo eram confeccionadas,
geralmente pela própria Kodak. O custo disso era relativamente alto,
e se a câmera não emplacasse comercialmente, o formato era fadado a
morrer, como acontece até hoje em certos formatos de vídeo, como o
Betamax (que sucumbiu ao VHS) e o Laser Disc (que morreu com a
entrada do DVD). Assim, os grandes formatos, durante todo o período
que vai de meados de 1900 até 1930, sofreram constantes
modificações, sendo padronizados pela influência comercial em três
principais, as chapas de negativo 8x10 polegadas, a 5x7 polegadas e
a 4x5 polegadas. |
Já nos formatos em rolo, que eram
destinados principalmente ao usuário amador - e mais tarde ao
fotojornalismo - eram mais favoráveis à aceitação comercial, de maneira
que até a própria Eastman fabricou um grande número de formatos,
identificados por números como 101 (introduzido no mercado em 1901), 116,
117, 120 (introduzido também em 1901), 122 (introduzido em 1906 e
descontinuado em 1949), 123 (introduzido em 1904), 127 e mais tarde, 616 e
620 (introduzidos em 1932). A maioria destes formatos não sobreviveu,
sendo que alguns deles ainda são possíveis sob encomenda. Mas a partir da
década de 20, com a entrada das câmeras de fabricação japonesa, bem mais
baratas, alguns destes formatos solidificaram-se junto ao público, razão
pela qual subsistem até hoje, como o formato 120, que permitia exposições
nas proporções 6x4,5cm, 6x6 cm, 6x9 e até 6x12. O exemplo mais famoso
destas câmeras, e que sem dúvida contribuiu para sua continuidade, é a
Rolleiflex.
Apesar de diferentes tentativas de fomatos menores, a
fábrica alemã Leitz lançou em 1913 um protótipo de uma câmera no formato
35mm, antes apenas utilizado em películas cinematográficas. A idéia de
usar 35mm era, segundo o aspecto comercial, muito mais favorável uma vez
que já eram fabricadas em larga escala em função da indústria
cinematográfica. Tanto que, quase simultaneamente, a fábrica Francesa
Jules Richard lançou (em 1914) a Homeos, a primeira câmera stereo 35mm
lançada comercialmente. Mas o fato desta ser uma câmera stereoscópica, a
limitava em termos de trabalho, e paralelamente a fábrica de Leitz
continuou a aperfeiçoar um modelo que foi lançado definitivamente em 1924,
a lendária Leica.
A câmera era extremamente compacta, com velocidade
fixa em 1/40 seg. e de mecânica simples e impecável.
Mas seu maior trunfo era
sua lente: resultado do trabalho de Ernst Leitz como fabricante de
microscópios e telescópios antes de criar sua própria firma, e da
união deste com Oskar Barnack, que trabalhava também na fabricação
de lentes na Zeiss. Dessa sociedade, o resultado foi uma câmera
amadora com uma qualidade óptica extraordinária, e que aos poucos
foi ganhando mercado, sendo usada largamente no fotojornalismo. Já
em 1930, a Leica era tão popular que o formato 35mm começou a ser
progressivamente preferido para o uso amador, estourando como
formato após a Segunda Guerra Mundial.
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A lendária câmera
Leica |
Em oposição à excelência
técnica alemã, entre os anos 10-30, surgiu uma nova potência na fabricação
de lentes e câmeras: os japoneses.
Já haviam fabricantes de origem
nipônica desde 1890, muitas vezes em sociedades com firmas alemãs, mas
após a Primeira Guerra houve um verdadeiro boom de grandes indústrias,
como por exemplo a Nikon (Nippon Kogaku), formada em 1917, a Olympus e a
Asahi Pentax, ambas de 1919, a Minolta de 1928, a Canon de 1933 e a Fuji,
de 1934.
Perspectivas
É claro que muita coisa foi
acrescida e mudada desde então, aperfeiçoamentos tecnológicos, processos
eficientes e baratos, câmeras programáveis e a fotografia digital, nova
revolução nas artes fotográficas.
Mas, olhando para o passado, é
possível entender que todo esse esforço, de muitos que marcaram a
história, e muitos outros anônimos, foram extremamente importantes para
chegarmos naquilo que hoje entendemos como fotografia, para entendermos a
busca tão fascinante, tão intensa, pela apreensão de uma imagem, pela
idéia da memória coletiva, pela eternização de um momento. E aí,
novamente, nos deparamos com Platão. Não seria toda essa busca a busca
pela beleza da imagem que traduza um estado, um sentimento, uma idéia? A
fotografia busca um tempo, que não precisaria ser eternizado se não
estivesse perdido.
*Filipe Salles é fotógrafo e
cineasta; mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP e leciona
Fotografia na FAAP, PUC/SP e USJT.
Diagramação de Laura Del
Rey
Copyright© Filipe
Salles 2004
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